
Eu até nem sou de polémicas, que não sou, pelo menos aos fins de semana que é quando baixa a preguiça e se me dá a letargia. Mas quanto ao assunto fracturante e premente dos Cristos dependurados nas salas de aula, tenho que dizer de minha justiça.
Aqui a menina (decerto derivado a uma tremenda falha de carácter de seus papais) teve uma educação agnóstica. E começou logo pelo princípio, não me tendo sido dado o sacramento do baptismo. Não foi questão de papais temerem uma pneumonia, que nasci na primavera. Foi antes o quererem deixar ao meu critério a adesão a qualquer clube religioso, fosse ele qual fosse; e que, calhando, o fizesse livre, deliberada e conscientemente. O choque não foi grande, fora para a tia avó freira. Afinal já tinham casado pelo civil (sacrilégio! concubinos!), o que, ao tempo, já era escandaloso q.b. Uma vez que já estavam perdidos para a fé, também não admirava que arrastassem os filhos (que, segundo o livro de regras do clube católico, a Santa Madre Igreja, é aceitável, já que parece que os filhos pagarão até à 5ª geração os pecados da progenitura).
Em pequenita, e rodeada que estava de criancinhas mais bem educadas que eu (ou seja, que frequentavam a catequese) é natural que começasse a colocar questões, nomeadamente sobre a crença (ou falta dela) dos meus pais. Sobre a existência de Deus sempre foram muito sinceros: não sabiam. E também não se ralavam muito, na verdade. Mas, crentes que eram no contraditório, não me deixaram de informar sobre o que os outros criam. Que pensasse no assunto e formasse a minha opinião.
Claro que me explicaram quem tinha sido Jesus Cristo. Segundo a versão lá de casa, fora um homem muito bom, que pregava o amor entre os homens e a tolerância, e que tinha sido morto por espalhar estas ideias, tidas como subversivas. (uma espécie de Sócrates, portanto, mas deste só viria a ter conhecimento mais tarde, o que demonstra que se calhar alguma coisa de errado existe nas prioridades de educação). Mas ainda me esclareceram mais: para os cristãos ele seria o filho de Deus (e tinha ressuscitado), para os judeus apenas mais um profeta, e para outras pessoas apenas um homem bom.
Quando entrei para a escola primária, em 1977, na sala de aula lá estava, o homem bom, morto havia quase 2000 anos. Semi-nu, pregado numa cruz, a escorrer sangue da testa e das chagas. Bem por cima do quadro, era impossível ignorá-lo.
Aquilo incomodava-me, juro que me incomodava. Tinha seis anos e tinha que, todos os dias, ser confrontada com a imagem de um homem morto de forma especialmente perversa. Para mim, não era o filho de Deus que ali estava, mas uma vítima de tortura, ainda preso ao instrumento da sua morte. A figura não me suscitava exaltação ou gratidão pelo seu sacrifício, apenas horror e asco.
Ao fim de algum tempo claro que me habituei. Mas devo dizer que ainda hoje a imagem da cruz com Cristo lá pregado me causa asco. A exibição da dor e morte faz-me confusão, em qualquer circunstância. Nesta, parece-me uma vergonhosa exaltação do sacrifício, uma justificação do martírio, e um convite à veneração mais sabuja. Vede, vede, quem morreu por vós tristes pecadores. Que venerem a cruz, vá-se lá perceber porquê; mas ao menos tirem o homem de lá, que nervos (afinal fez coisas mais importantes que morrer, hein? tipo, concentrem-se na sua palavra, boa?).
E era escusado. Mostrem-no lá nas sedes do vosso clube, que aí mandam os membros e ateu não tem nada que mandar bitaites. Faz-me impressão à mesma, mas o problema é meu. Mas nas escolas ou em qualquer edifício público, tende paciência e recolheide lá as cruzinhas. Mesmo em hospitais, só se for nas capelas. Olh'aí, que já basta estar doente. É que (a sério, acontece) há mais gente neste mundo, e nem todos pensam como vós, maioria cristã. E que pense: o lugar do culto é nas igrejas. Ponto.
É que a tal tradição da cruz em todo o lado vem do tempo em que este ainda não era um estado laico, e até havia uma concordata a proibir os casados catolicamente de se divorciar e tudo. Já acabou, temos pena. Como (avisam-se os menos informados) também um dia deixou de ser tradição a mulher ser só esposa e mãe, um alongue do paterfamilias. Já para não falar dessa bela tradição do século passado que era a escravatura. Verdade. (e um dia, em continuando as actuais condições climatéricas, nem o bacalhau nos resta)
Olha, é evoluir. Para os que não acreditam na evolução, conformem-se.
Se são assim tão cristãos como pregam, acreditam que resignação é uma virtude, n'é? Pois pratiquem-na.