À nossa pergunta, o moço da agência entendeu por bem esclarecer-nos: parece que Hurgada é a Albufeira lá do sítio, e Sharm el Sheik é mais para quem aprecia mergulho e snorkeling. Estava enganado, enganadíssimo. Albufeira, mesmo no pino do verão, é uma maravilha, quando comparada com Hurgada.
Hurgada, deixem-me dizer-vos, é uma piolheira de primeiríssima categoria. Porque é que alguém decide torrar o seu dinheirinho laboriosamente ganho, apanhar um voo de seis horas, com escala, para ir fazer férias para ali, continua a ser um mistério. A não ser que vá ao engano, como nós.
Vamos por partes.
Hotel
Aqui tenho que fazer um mea culpa, mea maxima culpa. Tratando-se de uma viagem organizada, confiei que tudo estava bem, e que cinco estrelas seria bem bom. Não era. Não pesquisei nada sobre o resort, e teria bastado uma consulta no trip advisor para ficar com dúvidas. Nota para futuros viajantes: no Egipto, cinco estrelas correspondem a umas três, nossas. O serviço era péssimo, as instalações faziam lembrar muito apart-hotel em Quarteira (há 20 anos), a frequência já lá vamos. Ficámos num bungalow t1, é certo, mas nem isso atenuou o resto. Ai.
Hóspedes
Chegámos à hora de almoço, e ainda fomos dar uma volta. Pela pinta do pessoal que lá estava, tive logo a tirada (muito mazinha, eu sei) de “olha, é para aqui que vêm agora aqueles ingleses e alemães que iam para o Algarve”. Aqueles muito pé rapado, barulhentos e com ar de bairro social e que com a miséria do rendimento mínimo deles podiam apanhar um charter para Faro e passar 15 dias ao solinho – não sei se me faço entender. Mas não, não eram. Digamos antes que se tratava de white trash, sim, mas do leste europeu. Russos e sei lá que mais, e muito alemão. Da antiga RDA, presumo. Exemplificando. Famílias e crianças obesas, com cor de camarão e ar esquizóide. Reformados (e esposas) de meia idade, acabadíssimos, e com um ar de ex-funcionário do partido, Stasi, Kgb ou coisa que o valha. Tipos novos, de sunga (todos!), corrente de ouro ao pescoço, e acompanhados de loira alta e magérrima, com ar de stripper (ou pior) e poses a condizer, (vi uma na praia de salto alto, amarelo. a sério. não estou a brincar. e vestiam-se como se fossem atacar. juro. há putas mais discretas.) Maneiras: zero. Ao pequeno almoço e jantar, mais parecia que tinham aberto as portas a uma manada de esfomeados. Manápulas em cima do pão (olha o paninho… é para segurar no paninho quando se corta…), pratos a transbordar, bocas cheias, olhos ávidos. E a comida não era caso para isso, asseguro.
Enfim. Parecia que tínhamos caído no resort preferido da máfia russa. Cruzes canhoto. Mau aspecto que doía, e eu nem sou pessoa que se enxofre muito com estas coisas que sou menina para ficar muito bem num hotelzito 3*. Menos ali. Abaixo de super luxo, nem pensar. Livrem-se.
Praia
Finalmente, o que interessa. Imagino a inveja: hã, dois dias e meio na espreguiçadeira, hã, solzinho quente, hã, areia, hã, auguinha limpa e morna, hã.
Minha rica costa oeste. A água é fria, o mar impossível, mas é limpa. Verdade: lixo na praia. Tampas de garrafa, algumas garrafas de plástico, e muitos restos de tijolo, já batidos pelo mar. Esta explica-se bem: toda aquela costa é um imenso estaleiro e mar de construção que nem no Portinho da Arrábida antes das demolições.
A praia nem era digna desse nome. A areia era amarela escura e fazia lama com água (iaca). Parecia aquela areia de construção, a que se mistura no cimento.
O mar (suspiro). Mais lá para diante é capaz de haver recifes lindos e tal, mas ali havia era uma espécie de piscina de água de mar, rodeada por rocha, à qual se acedia por um passadiço. E onde se banhavam, ruidosa e espadinhadamente, os nossos queridos co-hóspedes. Era quentinha e super salgada, depois de dez minutos senti-me como um peixe em salmoura.
E é isto. Nem a gozámos devidamente, por causa do que se relata a seguir.
Ambiente e higiene
Já vi pessoal da Quercus a ter uma apoplexia por muito menos. Como já disse, toda a costa está pejada de construção. À balda, que planeamento urbanístico, viste-lo. Agora imaginem as descargas que vão para aquele mar. Isto para quem admita existir saneamento, que eu já não digo nada.
O sentido de higiene é o habitual para um egípcio, ou seja, pouco. Sim, apanhei uma intoxicação alimentar de proporções inimagináveis. E se eu tinha cuidado com o que comia e bebia (nada de fruta nem legumes crus, água só de garrafa selada). Dois dias depois de chegar cá ainda pensava erigir um altar ao Santo Imodium, e passei os dois últimos dias lá a pão e arroz branco. Sobrevivi dez dias de Cairo e cruzeiro no Nilo (onde desconfiávamos estar a tomar banho e café com a água do dito), para ir (literalmente) morrer na praia.
Portanto, quanto a Hurgada, nevermore.
Se fizer muita questão de ter umas fériazinhas de praia (que não faço, há tanto mundo para ver), em local aprazível e paradisíaco, mais depressa me apanham no Mediterrâneo ou Caraíbas (mesmo com o inconveniente do jet lag) que por ali.
(e deixei por contar, mas conto, a seca que é aturar toda a oferta de serviços, e como somos constantemente importunados para fazer massagens / ir na excursão tal / cabeleireiro com depilação / aulas de mergulho / spa / raio que os parta. E fomos ainda, numa de national geographic, ao vilarejo mais próximo. aventura a esquecer, com tentativa de extorsão por parte do motorista de táxi e amigalhaços do bazar onde nos largou. perto daquilo, fazer compras no Martim Moniz sabe a um shopping spree na Avenue Montaigne)