Intenção de Voto (4) PP
Logo no início da campanha avisa-nos: não anda aqui a brincar. Ufa, que alívio. Ao menos um. Depois, vem o chefe avisar: não lhes basta ter razão (que têm, claro, quem contesta), é preciso votar. Ah, bom, então era isso. Boa, votar. Em vocês? Ai, isso é que é pior.
Explico. O Nuno Melo é bem parecido. É xuxu, um colírio para vista, concedo. E é doutor em leis, dúvidas houvesse temos o blazer azul escuro com botão dourado para as dissipar (no inverno combina com calça cinza, no verão com calça bege; no pé sapato tipo mocassim, de pála, de preferência com borlita. A borlita é a cereja no topo do bolo, a anunciar "cá vai doutor, mas é um caturra"). A farda (e o recheio), já a conheço dos tempos de faculdade. Arejava de seis em seis meses, na época das orais. Naquela idade de inocência, quando os via assim vestidos, gozava com o ar de beto; hoje, mais madura e sabida das coisas da vida pelo que vou observando, diria "este tipo tem futuro". Porque os coleguinhas, mais ou menos betos, mais ou menos preocupados com as questões sociais, já tinham a farda da elite futura governante da nação. Pulover burberry. Camisa de quadrados. Calça jean ou chino. Sapato de vela ou pála.
E depois havia os outros, os "nunca vão chegar a lado nenhum, e acabarão a afogar-se no vómito das suas ideologias utópicas". Os que trajavam sem cuidado de mostrar a sua seriedade interior. Como lhes apetecia. Normalmente também não tinham inibições em dizer o que (bem ou mal) pensavam. Mesmo e principalmente se não fosse o que os outros queriam ouvir. Camisas de flanela, jeans descaídos, ténis de lona, Nirvana e Pearl Jam a debitar nos fones. Já a meio dos anos 90 até apareciam alguns que tiveram a coragem de se assumir em luto total, (des)penteados assimétricos, botas docmarten. Éramos assim, desalinhados, desbocados. Desconsiderados por aqueles que agora, nos outdoors e noticiários, nos pedem para votar neles.
Por muitas coisas boas que façam ou pareçam fazer, digam e até pareçam querer mesmo dizer, os Nunos Melos desta vida metem-me medo. Desconfio instintivamente deles. E não voto neles.

3 a explicar:
é a melhor análise que li até agora... =)
Me neither. E não ando aqui a brincar aos votos ;-)
Fabulosa: eia, obrigada... é pena é não me pagarem o mesmo que pagam aos comentadores políticos dos telejornais ;P
IB: nem eu... mas mais valia, caneco, com as opções que nos dão.
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