Polícia do Turismo (a micar a turista que está a micar o polícia) com Lago Nasser em fundo.
O Egipto é um alvo terrorista. O ataque mais tristemente célebre ocorreu em 1997, em Luxor, no templo de Hatshepsut, e ali morreram 63 pessoas, 59 das quais turistas. Posteriormente, já houve mais ataques, à bomba, em Sharm el Sheik, Dahab, Cairo. Por causa do massacre de 1997, o governo egípcio reorganizou toda a segurança relativa à actividade turística: foi criada uma força especial, a Tourist Police (uniforme branco, normalmente muito encardido), e acabaram os cruzeiros entre o Cairo e Luxor (pena). Toda a actividade de turismo é fortemente vigiada e organizada, a fim de evitar outros triste eventos. Há que proteger a galinha dos ovos de prata (ei, eles têm petróleo, essa é a dos ovos de ouro. negro.), e não se poupam a esforços.
Será?
Não quero assustar ninguém, mas depois de 15 dias por lá, dezenas de monumentos visitados, dois barcos, dois hotéis, e quatro aeroportos, é mais o fogo de vista que a eficácia. A segurança nos aeroportos, principalmente os de voos domésticos, é appalling. Uso a palavrita inglesa porque é a que, não só em termos de significado mas principalmente de sonoridade, melhor descreve a coisa. Experimentem visualizar um inglês a dizê-la: tal e qual. Quem já passou por Heathrow acha aquilo tudo inacreditável, nem na Portela.
Exemplificando.
Uma das vezes deixei um cantil cheio de água na bagagem de mão. Esqueci-me completamente, que passávamos a vida a fazer e desfazer malas. Dei conta do engano quando chegámos ao destino. Sim, passou no controlo.
Outra vez foi a embalagem de protector solar que ficou na mochila. Dei por isso a tempo, mas não a ia declarar, custou-me para cima de 20 aérios. Bingo: passou. Aliás, é usual ver passageiros na sala de embarque com garrafas de água na mão. Sim, com líquido. Devem eles pensar que são todos brancos, não se explodem uns aos outros. Tá bem abelha, até ao dia.
Há detectores de metais, claro, mas os ditos passam a vida a apitar e já ninguém liga: à uma, só quem quer tira o cinto (nunca o tirei) e ninguém se descalça (eu não vi). Se houver uma mulher no pessoal, lá nos revistam (num aeroporto não havia, eu apitei, apontei para o cinto e deixaram-me avançar). Os homens são apalpados, sim senhora. Mas às vezes sem grande convicção. Às duas, os próprios guardas, armados (claro), passam a vida a passarinhar de um lado para o outro do detector. Pi, pi, pi. É a música ambiente. Inclusivamente, vi passageiros que já tinham passado a voltar ao átrio atrás do detector (isto em Hurghada). Palmas de pé.
Em todos os hotéis e barcos há detectores de metais, à entrada. Idem para os monumentos. Mas se é turista, pode apitar à vontade, que passa. Nós já fazíamos um jogo, o aposto-que-apito-mais-que-tu. Em alguns monumentos tinha que se passar a tralha (mochilas, máquinas) por uma máquina de raio X. Mas o pessoal que fazia a verificação estava num relax muito inusitado, as mais das vezes. E se a fila era muito grande, tudo passava, na boa e à confiança.
No Cairo havia ainda controlo de bomba: um canito cheirava todos os veículos e viam (às vezes viam, digo eu) a parte de baixo do veículo com um espelho, antes de baixarem os pilaretes da entrada do hotel. Menos mal.
Todos os monumentos são guardados por polícias de turismo. Ao princípio, impressiona, mas às tantas um gajo habitua-se a vê-los, de kalash debaixo do braço. Quanto mais para sul, mais guardas. E então começo a reparar no encardido das fardas, nas botas descoladas e rotas, nas atitudes fora de forma (encostadinhos à sombra, bruxo) e a pensar quanto ganhará aquela gente e qual a sua motivação para fazer um trabalho decente... mas disso também se falará noutro dia.
E depois, as caravanas. A turistada anda toda em rebanho: os barcos largam todos à vez, e sobem o rio em filinha pirilau. Para Abu Simbel, caravana guardada (por quem, não sei: só via autocarros de turismo, não dei por sermos acompanhados de escolta armada, mas vamos acreditar que lá estavam), que parte a horas certas e toda em filinha, a velocidade constante.
Às tantas, encolhe-se os ombros. Hoje em dia, não é tanto onde se vai, mas ter a sorte ou o azar de se estar no local certo ou errado à hora certa ou errada. Londres, NY, Madrid: pode acontecer em qualquer lado. Aliás em Londres e NY uma pessoa até sente mais o inquietante clima de paranóia securitária, de tal forma as forças policiais o transmitem. Sempre alertas. Mas, a acontecer alguma (lagarto, lagarto) fiava-me mais num polícia inglês, olé se fiava.